A Peça Que Eu Quase Não Consegui Entregar

Quem trabalha com o artesanal aprende uma coisa cedo:
Não porque deu errado.
nem toda peça é feita apenas de linha.
Algumas são feitas de memória.
Existe uma peça que quase não consegui entregar.
Não porque atrasou.
Não porque faltou tempo.
Mas porque ela significava muito para mim.
O nome dela era Maria Flor.
E, de certa forma, ela nasceu antes mesmo da Casa de Boneca existir.
Antes dos lançamentos.
Antes das coleções.
Antes dos planejamentos.
Antes de tudo ganhar um nome.
Naquela época eu ainda estava descobrindo o que queria construir.
Existia apenas uma vontade silenciosa de criar.
Eu ainda não tinha todas as respostas.
Não sabia se daria certo.
Não sabia até onde aquele caminho poderia me levar.
Mas seguia fazendo um ponto de cada vez.
E foi nesse período que a Maria Flor ganhou vida.
Ela acompanhou meus primeiros aprendizados.
Viu peças que ficaram lindas.
Viu outras que precisei desmanchar e recomeçar.
Esteve presente em momentos de entusiasmo e também nos dias em que pensei em desistir.
Enquanto ela tomava forma, eu também estava tomando forma.
Hoje percebo que ela não foi apenas uma peça.
Ela foi testemunha do começo.
Carregava dentro dela muitas horas de trabalho, mas também carregava sonhos, inseguranças, coragem e esperança.
Por isso, quando chegou o momento de ela encontrar um novo lar, senti algo diferente.
Quem faz artesanal sabe.
Existem peças que nos atravessam.
Peças que contam uma história tão importante que parecem fazer parte da família.
Lembro de terminar tudo.
Conferir cada detalhe.
Preparar a embalagem.
E, antes de fechar a caixa, simplesmente parar.
Fiquei alguns minutos olhando para ela.
Em silêncio.
Lembrando de quem eu era quando comecei.
Lembrando das noites em que fazia crochê sem saber exatamente onde aquilo me levaria.
Lembrando dos sonhos que ainda nem tinham nome.
Claro que a Maria Flor foi.
E ficou exatamente onde deveria estar.
Porque o destino das peças artesanais é encontrar pessoas e criar novas histórias.
Mas naquele dia eu entendi uma coisa:
algumas entregas não são apenas entregas.
São despedidas.
E talvez seja por isso que certas peças sejam impossíveis de esquecer.
Porque carregam muito mais do que linha e enchimento.
Carregam capítulos inteiros da nossa vida.
E a Maria Flor sempre vai carregar um pedacinho do início de tudo.
Do começo da Casa de Boneca.
Do começo de muitos sonhos.
E, de certa forma, do começo de mim também. 🤍

Comentários