Quando os fios começaram a ganhar vida

No começo eram apenas fios.

Novelos quietos, enrolados, esperando o momento de se transformar em alguma coisa.

Quem olha de fora talvez imagine apenas um material de trabalho.
Mas quem trabalha com as mãos sabe: fios nunca são apenas fios.

Eles guardam possibilidades.

No início, eram só pontos.
Ponto baixo, ponto após ponto, repetindo movimentos que parecem simples, quase silenciosos.

Mas então algo curioso começa a acontecer.

Primeiro aparecem os olhos.

Pequenos, discretos, mas cheios de expressão.

Depois surgem rostos.
Um formato diferente aqui, uma curva ali… e de repente aquele pedaço de fio já parece olhar de volta.

É nesse momento que percebemos:
não estamos mais fazendo apenas uma peça.

Estamos dando forma a um personagem.

Assim, pouco a pouco, começaram a nascer os moradores da Casa.

Alguns chegam mais tímidos.
Outros parecem chegar cheios de histórias para contar.

Cada um com sua personalidade.
Seu jeito.
Seu pequeno lugar no mundo.

E foi assim que os personagens começaram a morar na Casa.

Mas existe algo curioso que acontece com o tempo.

Enquanto os personagens vão ocupando prateleiras, mesas e cantinhos, outra coisa também acontece sem a gente perceber.

A Casa começa a ocupar a gente.

Vai entrando devagar no cotidiano.
Nos gestos repetidos das mãos.
Na alegria de terminar uma peça.
No silêncio bom que existe entre um ponto e outro.

Quando vemos, ela já mora ali.

Não apenas no espaço físico.

Mas nas histórias, nos afetos e nas pessoas que passam por ela.

Porque, no fundo, talvez seja isso que o feito à mão faz:

ele transforma fios em personagens
e transforma trabalho em casa.


E você?

Também cria algo com as mãos?

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